Além da jornada de trabalho, muitas mulheres na logística têm que lidar com dificuldades na rotina como, dupla jornada, assédios, diferença salarial e preconceito, independentemente da sua área de atuação.

E, nesta jornada seguindo suas aspirações e sonhos, muitas escolhem profissões estereotipadamente masculinizadas, como a logística.

Mas, quais são os desafios dessas profissionais ao escolherem essa área de atuação para toda a vida?

Presença das mulheres no mercado de trabalho

Segundo relatório do FMI, em geral as mulheres têm 20% a menos de participação no mercado de trabalho quando comparadas aos homens.

Em 2019, um estudo do IBGE apontou que mulheres têm maiores dificuldades na hora de se inserirem no mercado de trabalho e, entre os vários fatores que levam a este número, em primeiro lugar estão o que são considerados “trabalhos não remunerados” – cuidar da casa e dos filhos.

Mesmo para as mulheres que estão trabalhando, o maior envolvimento do gênero com atividades como cuidados e afazeres domésticos, tende a impactar na inserção ao mercado de trabalho.

Outro indicador importante a ser observado é a presença das mulheres nos cargos gerenciais (CMIG-45) tanto no setor público quanto no privado. Em 2019, o Brasil registrou 62,6% dos cargos gerenciais ocupados por homens, sendo 37,4% das vagas ocupadas por mulheres.

Ainda que as baixas taxas preocupem, onde há a maior participação das mulheres está diretamente relacionada ao crescimento econômico: as áreas da tecnologia e comunicação.

Essa pauta pode parecer antiga, mas, segundo a Organização Internacional do Trabalho, a luta pela diminuição da desigualdade de gênero tem um potencial transformador para a economia brasileira. Segundo a OIT, estima-se que o crescimento da participação feminina pode expandir a renda nacional em até R$ 382 bilhões, com geração de receita tributária em torno de R$ 131 bilhões.

Para conversar mais sobre o assunto, a Opentech convidou profissionais mulheres que lideram nos diferentes segmentos da logística para compartilharem mais sobre os desafios e conquistas do gênero na área. Conheça mais sobre suas histórias ao decorrer da matéria.

Presença das mulheres na logística

Com que frequência você já viu uma mulher atrás da boleia? Assim como em muitos outros setores da economia, a presença das mulheres na logística tem se tornado cada vez mais frequente.

Majoritariamente masculino, a logística ainda está muito atrelada à imagem de homens. No entanto, elas fazem parte de 17% dos trabalhadores de carga.

Elas podem ainda não ser maioria, mas muitas mulheres hoje já quebram os paradigmas criados de que existem trabalhos que só podem ser realizados por eles. Afinal, historicamente falando, o trabalho fora do ambiente doméstico é uma conquista ainda recente para as mulheres.

Graças à intensa expansão da área, muitas mulheres têm aproveitado a oportunidade para se especializar, tanto na parte operacional quanto administrativa da logística.

De acordo com uma pesquisa da Gupy, empresa de tecnologia para recursos humanos, só em 2020 – ano de pandemia, a contratação de mulheres no setor logístico aumentou 229% e foi uma das áreas que mais contratou durante o mesmo ano.

Mulheres em cargos operacionais na logística

Até poucos anos atrás, mulheres caminhoneiras era algo inimaginável, no entanto, segundo dados do Ministério das Cidades, há mais de 160.000 profissionais aptas a conduzirem veículos pesados em todo o Brasil (2020).

Fortes e, ao mesmo tempo, cautelosas na direção, a presença feminina em cargos operacionais no setor logístico vem crescendo.

Muitas buscam a área pela liberdade, flexibilidade e controle sobre o trabalho. Além disso, muitas também seguem a profissão por influência de familiares próximos ou em busca da independência financeira.

Ainda há muito espaço a ser conquistado: caminhoneiras representam apenas 0,5% do total de caminhoneiros no país, segundo estimativa da Confederação Nacional de Transporte (CNT).

Um dos grandes nomes femininos nesta área é Gisely de Cássia da Cruz (@qraembaixadora), de Divinópolis (MG). Caminhoneira desde 2020, decidiu seguir na área após uma experiência que despertou seu amor pela estrada e emoção por controlar um caminhão.

Mulheres na logística Mulheres na logística

Gisely de Cássia da Cruz, mulher e caminhoneira

Pode parecer recente sua trajetória na profissão, mas a mesma admite que poucas pessoas devem saber seu verdadeiro nome. Seu QRA é sua identidade mais conhecida, Embaixadora.

“Não me imagino fazendo outra coisa, é diesel que corre nas minhas veias. Sou viciada em estar no trecho.” – diz Gisely.

Segundo o Instituto Renault, 70% das infrações no trânsito são ocasionados por homens, influenciando na escolha de mulheres na contratação desses serviços.

“Graças a Deus somos admiradas na maior parte do tempo e, seguindo essa profissão, mostramos que somos capazes de termos a profissão que quisermos.” – compartilha Gisely.

Optar por ser uma mulher caminhoneira é escolher o estilo de vida e dificuldades que acompanham a profissão, o que, para muitas, pode parecer desafiador.

Mas, se o seu sonho é a liberdade de dirigir um caminhão de carga e estar sempre em movimento conhecendo o Brasil e, talvez, até outros países da América do Sul, saiba que esta profissão permite grande crescimento e amadurecimento afinal, você deve estar preparada para enfrentar novos desafios todos os dias.

E, por falar em poder viajar pela América do Sul, quando perguntada sobre qual história que mais a marcou, Gisely responde:

“Na minha primeira viajem internacional, quando eu estava atravessando o deserto do Atacama, sozinha, dirigindo um caminhão, eu senti a presença de Deus ao meu lado. Foi mágico. Conhecer novos lugares, novas culturas e novos sabores supera as dificuldades que enfrentamos no dia a dia.”

Se seu sonho também é seguir nesta profissão e se tornar uma mulher caminhoneira, Gisely compartilha:

“O que eu gostaria de deixar para as outras mulheres que possuem este mesmo sonho, é que elas podem e conseguem. Parece ser mais difícil do que realmente é. Tem que ter perseverança, foco e fé. Se eu consegui, vocês também conseguem!”

Mulheres em cargos administrativos na logística

A logística se adaptou às atuais demandas do mercado, tornando-se mais analítica e implementando novas tecnologias para otimizar processos e atender aos novos padrões exigidos.

Neste novo cenário, novos cargos na área foram gerados aumentando a busca por profissionais com conhecimento prático e teórico em diferentes quesitos, como:

  • Liderança;
  • Flexibilidade;
  • Raciocínio lógico;
  • Inteligência emocional;
  • Planejamento;
  • Relacionamento interpessoal.

Estudos divulgados pela Ernest Young apontam que o público feminino possui maior domínio das características listadas acima, como liderança e relacionamento interpessoal.

Além disso, foi observado que elas tendem a desafiar as abordagens convencionais, criando ambientes de trabalho e equipes que visam a melhoria contínua dos processos.

Este mesmo estudo ainda divulgou que empresas com mulheres em cargos estratégicos e de diretoria tiveram aumento na lucratividade e desempenho.

A logística não se limita mais apenas ao trabalho operacional. As possíveis áreas de atuação:

  • Supply Chain;
  • Controle de estoque;
  • Compras.

Assegurar às mulheres igualdade de oportunidades nos processos de tomada de decisão é uma das metas da Agenda 2030. De acordo com este plano, desenvolvido com o objetivo de alcançar um mundo mais justo e melhor, as mulheres devem participar efetivamente da vida pública, em seus campos cívico, econômico e político, assumindo posições de liderança tanto no setor público, quanto no setor privado.

O desafio estipulado pelo plano é de que as mulheres ocupem até 30% dos cargos de liderança até 2025 e até 50% em 2030.

É fato que a logística deixou de ser tão braçal e as mulheres estão cada vez mais preparadas para atenderem esta fase estratégica da área.

Principais desafios enfrentadas pelas mulheres na logística

A vida na boleia pode não ser fácil para quem escolhe seguir a profissão, as estradas brasileiras podem ser hostis e pouco acolhedoras visto que a presença delas continua sendo alvo de subestimação por parte de muitos profissionais (e não apenas do sexo masculino).

Não apenas o risco de roubo e furto de cargas, no caso das mulheres caminhoneiras, há ainda o risco de assédio masculino que pode resultar em risco nas estradas ou em situações constrangedoras. Some isso a noites sem dormir, sono desregulado, riscos de acidentes de trânsito, não estar presente em datas especiais, saudade de casa e da família.

Segundo a caminhoneira Gisely de Cássia:

“A mulher é avaliada o tempo todo e, muitas vezes, assediada.” – Gisely ainda continua: “Temos que provar nossa competência e valor bem mais intensamente que homens.”

Independente do gênero, alguns desafios são comuns aos profissionais motoristas de caminhão como qualidade das estradas, preço dos combustíveis e infraestrutura, mas, existem particularidades a serem enfrentadas principalmente por ser mulher.

Preconceito

“Tão pequena dirigindo um caminhão desse tamanho?” ou “mulher não tem força para conduzir um caminhão de carga”.

Pode vir de familiares, amigos ou colegas de profissão; o estereótipo de que mulheres são frágeis e, por isso, devem manter-se em profissões consideradas como tais, é um dos maiores desafios ainda presentes no mercado.

É uma constante batalha ter sua competência sempre questionada e ter que provar que as mulheres merecem o seu espaço e devem ser reconhecidas também nesta área.

Motorista de fretado há mais de 10 anos, Adeni Hobold compartilhou um forte exemplo dessa situação que passou com um passageiro:

“Uma vez, um passageiro disse ‘Vou ter que ir pra casa com uma mulher no volante? Não ando de carona nem com minha esposa!’. Fiquei triste com o comentário, mas passei segurança para ele e dei a liberdade dele ir com outro motorista, mas ele não quis então seguimos e no final do roteiro ele me deu parabéns.”

Mulheres na logística
Adeni Hobold, mulher e motorista de fretado

Assédio sexual

Entre longas e exaustivas jornadas, muitos colegas de profissões ou trabalhadores de postos de gasolina ainda estranham a presença delas na boleia.

Por estarem sempre sozinhas, mulheres caminhoneiras correm maior risco de sofrerem esta violência.

Por isso, é cada vez mais importante levar este debate sobre os perigos de atitudes machistas para dentro das empresas, a fim de conscientizar cada vez mais profissionais da área.

Como a caminhoneira mulher pode se defender de assédio sexual

As mulheres, assim como homens, podem passar por longos períodos sozinhos a trabalho. Essa vulnerabilidade torna ainda mais importante que mais homens se conscientizem sobre essa questão.

No entanto, muitas mulheres têm buscado formas de se defenderem sozinhas com cursos de defesa pessoal.

Mas, mesmo sabendo se defender, é importante também incentivar que a vítima denuncie o crime cometido, acionando as autoridades locais.

Infraestrutura

Falta de banheiros femininos nas estradas ou dificuldade para encontrar hospedagens e acomodações seguras para estas profissionais são alguns desafios enfrentados por estas mulheres.

A experiência nas estradas fez Gisely perceber várias melhorias que são necessárias para alcançar uma estrada adequada para todos e todas:

“É necessário mais pontos de paradas dignos com locais adequados para banho, descanso e alimentação. Em geral, também é necessária mais melhoria na rodoviária brasileira.”

Já de acordo com Adeni, a principal dificuldade é a mobilidade:

“Hoje é um desafio ter segurança e pontualidade todos os dias.”

Movimentos da mulheres na logística

A participação das mulheres na logística tem ganho espaço em grandes eventos e painéis.

A criação e o fortalecimento de movimentos femininos ganham ainda mais força e se tornam ainda mais necessários a medida que as mulheres se tornam mais presentes no mercado de trabalho.

Os movimentos criados buscam dar voz para caminhoneiras e cristais – como são conhecidas as esposas dos caminhoneiros, fazendo com que suas histórias sejam ouvidas e inspirem ainda mais mulheres.

Abaixo listamos alguns movimentos brasileiros para você conhecer e acompanhar seu trabalho e importância para o desenvolvimento de uma logística mais igualitária.

Programa Na Mão Certa

Criado em 1999 pela Rainha Silvia da Suécia, o programa incentiva a implementação de políticas públicas para prevenção à violência sexual contra crianças e adolescentes.

O projeto, que conta com a Opentech como um dos mantenedores, foi lançado oficialmente em 2006 através da assinatura do Pacto Empresarial Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Brasileiras.

O principal objetivo do projeto é educar motoristas de caminhão para atuarem como agentes de proteção dos direitos das crianças e adolescentes.

Site: namaocerta.org.br/

Movimento Vez & Voz

Iniciativa do SETCESP (www.setcesp.org.br), busca valorizar as mulheres que trabalham no setor rodoviário de cargas, fomentando seu crescimento profissional e atraindo novas profissionais.

Além disso, o movimento é palco para debates sobre maternidade, autoconhecimento, saúde e beleza desse público.

Site: vezevoz.org/

Instagram: @vezevoz.mulheresnotrc

Movimento A Voz Delas

Movimento criado pela Mercedes-Benz, busca conscientizar a sociedade sobre a importância e necessidades das mulheres que estão nas estradas, levando aos gestores de frotas, empresários, embarcadores e associações os benefícios de oferecer uma estrutura adequada e olhar humanizado para as necessidades destas profissionais.

Site: avozdelas.com.br/

Programa Rota Feminina

Busca, através de uma plataforma, fazer conexão entre profissionais mulheres e fornecedores, parceiros de trabalho e empresas de logística e transporte, contribuindo para a evolução da diversidade de gênero no ecossistema logístico.

O projeto surgiu com o objetivo de levar informação às empresas, profissionais e jovens que ainda não estão no mercado de trabalho.

Site: rotafemininamove.com.br/index.html

Instagram: @rotafeminina.move

Mulheres na logística da Opentech

Na Opentech, acreditamos em protagonismo e diversidade para conseguirmos movimentar o mundo com qualidade e segurança.

Entre os 672 colaboradores, 317 são mulheres, correspondendo a 47% do total. E, entre os cargos de lideranças, como analistas responsáveis pelos times de Operação, supervisores, coordenadores, gerentes de contas, gerentes e heads, são 26 mulheres.

Segundo a motorista Adeni, um dos vários exemplos de mulheres pioneiras, a profissão é mais que um sonho, é uma conquista.

Uma frase compartilhada pela caminhoneira Gisely chama a atenção para o real sentimento que estas mulheres têm apesar dos problemas do dia a dia:

“Ocupar o cargo que eu ocupo me realiza: sinto orgulho de mim mesma e em poder incentivar outras mulheres a seguirem seus sonhos.”
Como publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:

“A ampliação de políticas sociais ao longo do tempo, incrementando as condições de vida da população em geral, fomenta a melhora de alguns indicadores sociais das mulheres, como na área de saúde e educação. No entanto, não é suficiente para colocá-las em situação de igualdade com os homens em outras esferas, em especial no mercado de trabalho e em espaços de tomada de decisão. A responsabilidade quase duas vezes maior por afazeres domésticos e cuidados ainda é fator limitador importante para uma maior e melhor participação no mercado de trabalho, pois tende a reduzir a ocupação das mulheres ou a direcioná-las para ocupações menos remuneradas.”

A presença das mulheres na logística, ou em qualquer outro segmento do mercado, não é uma pauta nova. No entanto, enquanto ainda houver desigualdade de salários e funções de gêneros, ainda será necessário discuti-la.

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